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A cultura do “quebra-galho” brasileiro

Festas e eventos: oportunidades para encontrar os amigos de longa data que há tempo não vemos, reunir os familiares etc que resultam na cultura quebra-galho brasileira.

Para quem é advogada, além de tudo isso, é aquele famoso tempo também para se receber aqueles tipos de “consultas informais”, que sempre começam com a célebre deixa: “você, que é advogado, o que acha disso, disso e daquilo?”, “consegue dar uma olhadinha nisso para mim”, “pode dar uma opinião sobre isso?”.
Em primeiro lugar, é sempre importante dizer que o advogado não dá uma “olhadinha”, não passa uma “opinião”. Advogados que tomam esse tipo de conduta, além de não estarem adequados às regras da OAB, acabam por fazer trabalhos incompletos, que podem gerar um prejuízo alto depois.
“Olhadinha”, com absoluta certeza, não se confunde com análise adequada, e é essa a conduta que sempre se deve ter, pois, após a “olhadinha” e a “dica”, caso tenha passado despercebido algum ponto por conta dessa “ajuda informal”, o cliente/amigo poderá sofrer consequências desagradáveis, o que, no mínimo, prejudicará a imagem do “advogado amigo” e da própria profissão.

Diante disso, a postura adequada e esperada do profissional do Direito é sinalizar assim: “posso analisar o seu caso, mas devemos então marcar uma reunião, na qual você deverá trazer todos os documentos relacionados ao assunto, relatar também em detalhes todo o ocorrido, e aí sim, com os mínimos subsídios necessários, poderei estudar a situação e passar um caminho a ser seguido.”

Além disso, existe outro ponto primordial: a análise se o caso é de sua área de atuação ou não.

Diferente dos médicos (cuja cultura comum, há tempos, já distingue a figura do especialista), na área jurídica isso ainda não é algo que se considere, infelizmente.
Por exemplo: quando estamos com dores no pé, não procuramos um cardiologista, mas sim um ortopedista. Quando, por outro lado, o problema é na visão, não se procura um endocrinologista, mas sim um oftalmologista.
Entretanto, o que observamos sobre o senso comum quando o assunto é da área jurídica, é que advogado é advogado. Infelizmente as pessoas ainda não distinguem as especialidades no mundo jurídico, que, do contrário do que parece para a maioria das pessoas, não tem grande diferença da medicina. Um advogado que atua somente na área cível, por exemplo, direciona seu estudo para esse ramo do Direito. Se o assunto a ser tratado for da área criminal, ele poderá até ter noções, porém, sem sombra de dúvida, quem efetivamente irá tratar do assunto com as ferramentas necessárias para resolver da melhor forma a pendência será o advogado especializado em Direito Penal.

Diante disso, o que todos têm que ter em mente é a necessidade de se tratar de assuntos jurídicos com o cuidado e profissionalismo necessários, tanto os “advogados amigos”, quanto as pessoas que os procuram.
Essa questão é ainda mais sensível quando se trata da esfera empresarial.
Observamos no Brasil, com grande frequência, que muitos empresários não têm o costume de procurar especialistas quando precisam de ajuda.
As desculpas são sempre muito parecidas: “já estou com problemas financeiros e não posso trazer mais um custo”; “o mercado vai melhorar e vou sair dessa crise”; “ninguém melhor do que eu para entender do meu negócio” etc.

É aí, com posturas desse tipo, que mora o perigo.
Sem dúvida a empresária deve sempre ter na ponta do lápis o controle dos custos da operação. Além disso, também deve agir com otimismo, bem como ser especialista no seu ramo.
Porém, esses três pontos jamais podem se confundir com a figura do empresário “quebra galho”, “mente fechada” e “torcedora”.
Empresária Torcedora é a “otimista” que as coisas vão melhorar, mas que não faz nada diferente na sua operação para que isso aconteça: apenas torce!
Mente Fechada é aquela que acredita que ninguém é melhor do que ela para entender do seu negócio, mas não sabe diferenciar o “entender do negócio” do “entender de administração”. O que mais se observa no mercado, em relação aos empresários em crise, é que eles entendem sim dos seus negócios, mas pecam muito quando o assunto é administração.
Por fim, Empresária Quebra Galho é aquela que acha que entende de tudo, ou, quando admite que não entende de certo ponto, busca ajuda com “amigos”, porém não se importando se efetivamente são especializados no assunto.
É aí que voltamos ao ponto anterior, quando essa ajuda for da esfera jurídica: procurar um amigo para assuntos jurídicos, que não é especializado no tema, sem sombra de dúvida será o mesmo que não ter ajuda, podendo levar a empresária a se afundar ainda mais no problema.

Diante de todos esses pontos, fica aqui a observação:
Empresárias – busquem sempre a ajuda de especialistas, principalmente quando o assunto for da área jurídica, senão aquele ditado do “barato sair caro” será sempre uma constante em suas operações.
Advogados – tenham sempre em mente que a ajuda efetiva ao cliente não é ser um “quebra galho amigo”. Ajudar o cliente é atuar com responsabilidade no assunto apresentado, se for de sua especialidade. Caso não seja, o melhor sempre será direcionar para o especialista. Se for algum “pedido amigo”, poderá ser até que, num primeiro momento, passe-se a impressão de que não se quer ajudar. No entanto, com a devida explicação, o “cliente amigo” verá que você, na verdade, estará sendo cuidadoso e responsável com o problema dele, aumentando ainda mais a confiança em te procurar quando o assunto for de sua especialidade.

 

 

Fernando Pompeu Luccas é Advogado, especialista em Direito Processual Civil pela Puc-Campinas, em Direito Empresarial pela Escola Paulista de Direito/SP e em Recuperação Judicial e Falência pela Fadisp/SP. Presidente da Comissão de Estudos em Falência e Recuperação Judicial da OAB/Campinas, Sócio-Diretor da Brasil Trustee e sócio da Mangerona & Pompeu Sociedade de Advogados. Professor dos cursos de extensão e pós-graduação do Ibajud, da Escola Paulista de Direito, da Puc-Campinas e da Fadisp. Professor convidado dos cursos de extensão e pós-graduação da Escola Superior da Magistratura de Mato Grosso/MT, da Faculdade Damásio de Jesus/SP e da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Membro do Instituto Brasileiro de Estudos sobre Recuperação de Empresas – IBR, da International Association of Restructuring, Insolvency & Bankruptcy Professionals – INSOL e do Lide Campinas. Palestrante, coautor da obra “Comentários Completos à Lei de Recuperação de Empresas e Falências” e autor de artigos relacionados ao Direito Empresarial, em veículos como o Jornal Valor Econômico, Revista Consultor Jurídico, Revista Prática Forense etc.

15/03/2018

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    Pâmela Ponce

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